"O'Kelly começou a beber cada vez mais depressa e a boca deixou de lhe obedecer. Levantou-se a custo e saiu da sala com passos vacilantes. Passado algum tempo, regressou com uma folha de papel.
- Isto aqui escrevemos os dois juntos. Em Coimbra, quando parecia que o mundo nos pertencia.
Era uma lista, e em cima estava escrito: LEALDADE POR. Em baixo, Prado e O'Kelly tinham apontado todos os motivos pelos quais a lealdade podia desenvolver-se.
Culpa em relação a alguém; etapas de uma evolução em comum; sofrimento partilhado; alegria partilhada; solidariedade dos mortais; comunhão de convicções; luta comum contra o exterior; forças e fraquezas comuns; mútua necessidade de proximidade; semelhança de gostos; ódio comum; segredos partilhados; fantasias e sonhos partilhados; entusiasmo partilhado; humor partilhado; heróis partilhados; decisões tomadas em comum; sucessos, insucessos, vitórias e derrotas comuns; decepções partilhadas; erros comuns.
Reparara que na lista faltava o amor, disse Gregorious. O corpo de O'Kelly contraiu-se, e por um instante, pareceu recuperar a lucidez.
- Não era algo em que ele acreditasse. Até evitava a palavra. Achava que era kitsch. Costumava dizer que havia três coisas, e apenas essas três: o desejo, o agrado e a segurança. E todas eram efémeras. A mais fugaz era o desejo, depois vinha o agrado, e infelizmente acontecia também que a segurança, a sensação de se sentir protegido junto de alguém, também acabava por se desmoronar. As exigências da vida, todas as coisas com que temos que nos confrontar e ultrapassar acabam sempre por ser demasiadas e demasiado poderosas para que os nossos sentimentos consigam sair incólumes desses confrontos. Era por isso que a lealdade se tornava tão vital. Para ele não se tratava de um sentimento, mas de uma manifestação da vontade, de uma decisão, de uma opção da alma. algo capaz de transformar a imprevisibilidade dos encontros e a casualidade dos sentimentos numa necessidade. Um sopro de eternidade, dizia, apenas um sopro, mas ainda assim um sopro.
Mas enganou-se. Aliás, ambos nos enganámos."
Pascal Mercier
Comboio Nocturno para Lisboa
Sunday, October 06, 2013
Thursday, September 05, 2013
Saturday, August 17, 2013
Palavras
Gregorius nunca mais iria esquecer essa cena. Eram as suas primeiras palavras portuguesas no mundo real e tinham causado efeito. O facto de as palavras desencadearem algo nos outros, de poderem pôr alguém em movimento ou de travar esse impulso, de fazerem com que uma pessoa pudesse rir ou chorar, sempre lhe parecera estranho. Desde criança. E no fundo isso nunca deixara de o impressionar. Como é que elas conseguiam isso? Não era como a magia? Mas nesse momento o mistério parecia-lhe ainda maior do que habitualmente, pois tratava-se de palavras das quais ele na manhã do dia anterior ainda não fazia a mínima ideia. Quando pôs o pé na plataforma da gare de Irún todo o seu medo tinha desaparecido, e caminhou com passos seguros em direcção à carruagem-cama.
Pascal Mercier, Comboio Nocturno para Lisboa
O poder da palavra, as consequências de cada frase proferida, de cada conversa que compõe o percurso ininterrupto de cada conjunto de seres humanos, interligados para sempre, por sílabas, ditongos, expressões e interpretações, mais ou menos conseguidas.
O receio de dizer de mais, de não dizer exactamente o que se quer, de ser mal compreendido, dos significados distorcidos... O ainda maior receio de dizer precisamente o que se quer e de ser prefeitamente compreendido. No fundo, o medo de te perder, por ter coragem de chover.
Pascal Mercier, Comboio Nocturno para Lisboa
O poder da palavra, as consequências de cada frase proferida, de cada conversa que compõe o percurso ininterrupto de cada conjunto de seres humanos, interligados para sempre, por sílabas, ditongos, expressões e interpretações, mais ou menos conseguidas.
O receio de dizer de mais, de não dizer exactamente o que se quer, de ser mal compreendido, dos significados distorcidos... O ainda maior receio de dizer precisamente o que se quer e de ser prefeitamente compreendido. No fundo, o medo de te perder, por ter coragem de chover.
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